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The Witcher 3: Wild Hunt

José Teixeira: Portugal precisa de produtores veteranos.

O artista de efeitos visuais da CD Projekt Red fala da produção de Witcher 3, a crença de que serão os melhores do ano, e a hipótese de um dia voltar a Portugal.

José Teixeira é mais um exemplo do talento português que está espalhado por várias produtoras internacionais de videojogos. Embora tenha começado na área de arquitetura, passando pela publicidade, eventualmente rumou à Polónia em janeiro de 2009, para se juntar à produção de videojogos. Foi aí que conseguiu afirmar-se como Artista de Efeitos Especiais ao serviço da People Can Fly, onde trabalhou em projetos como Bulletstorm e Gears of War: Judgement, ao longo de quatro anos e meio.

Em 2013 surgiu a possibilidade de ser juntar à CD Projekt Red, para começar a trabalhar em The Witcher 3: Wild Hunt e Cyberpunk 2077, e não deixou fugir a oportunidade. Agora reconhece estar "super feliz" com a sua situação atual, e decidiu conceder esta entrevista ao Gamereactor, começando por explicar exatamente qual é a função de um Artista Técnico Sénior, que é a função que ocupa na CD Projekt Red.

"Sou responsável pelos efeitos visuais, portanto tento dar 'vida' ao mundo que os Artistas de Cenários criam. Temos aqui uma equipa de artistas excelente, capazes de criar mundos incrivelmente detalhados, embora bastante estáticos. É aqui que eu, e os restantes artistas de efeitos visuais, acrescentam os efeitos que dão alguma vida e movimento ao mundo. Efeitos como nuvens, chuva, rios, quedas de água e fumo a sair das chaminés, por exemplo. Também fazemos todos os efeitos de magia das personagens, os efeitos de combate, o sangue no cenário, e outros itens semelhantes. Nestes jogos em mundo aberto existe sempre imenso trabalho para fazer!"

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The Witcher 3: Wild Hunt está longe de ser um jogo feio. Aliás, considerando a escala e a complexidade do mundo, por vezes consegue ser mesmo impressionante, mas alguns fãs não perdoaram o facto da versão final não apresentar a qualidade gráfica exibida nos primeiros trailers do jogo. José Teixeira considerar todo esse tópico... deprimente.

"Houve muita discussão sobre gráficos antes do jogo ser lançado, mas depois quando finalmente saiu, encontramos inúmeros forums e comentários a elogiar os gráficos fantásticos do jogo. Ainda mais agora, que demos o acesso a todas as configurações de gráficos na versão PC. Comentar este tópico é um pouco como aquele velho provérbio: 'preso por ter cão, preso por não ter'. Não há nada que digamos capaz de satisfazer as pessoas, mas há um aspecto desta discussão que acho genuinamente assustador. Os jogos hoje em dia tornaram-se nisto? Tanto tempo, investimento, trabalho e suor a criar uma história, um mundo e personagens, para subitamente ser atacado e até ameaçado de boicote... porque a densidade da relva não é igual à do trailer, ou desapareceu um filtro visual? Isso é assustador, e honestamente, um bocado deprimente, sobretudo para quem passa horas intermináveis a tentar criar o melhor jogo possível."

"A CD Projekt Red preocupa-se imenso com a qualidade do jogo e nós sabíamos que o Witcher 3 seria muito complicado do ponto de vista de mecânicas do jogo. Aliás, brinco frequentemente que aqui no estúdio quem sofre mais com isso são os 'testers'. Um jogo tão grande, em mundo aberto, e uma historia não linear... há tantas formas de fazer coisas que é impossível testar todas as variantes possíveis. Existiam erros ridículos, problemas que só ocorriam a uma certa hora do dia, ou se o Geralt usasse determinada armadura... coisas completamente impossíveis de prever e testar. Seja como for, era crucial lançar o jogo sem erros que impedissem o jogador de chegar até ao final, e desde o lançamento que temos lançado várias atualizações com centenas, talvez milhares, de ajustes e pequenos erros corrigidos! É uma tarefa sem fim."

Apesar das queixas quanto à qualidade gráfica, e aos problemas evidentes aquando do lançamento, The Witcher 3: Wild Hunt foi aclamado por jogadores e imprensa especializada. Uma receção que era esperada... apesar do receio que se instalou perto dos dias de lançamento.

"Estávamos confiantes, mas na realidade acho que toda a gente estava com receio. É difícil explicar, porque este tipo de jogos sempre foram indicados para um público 'nicho"'. Temos imensos fãs 'hardcore', mas o público geral nunca se tinha interessado muito por Witcher. Inesperadamente, este jogo começou a ganhar o interesse de toda a gente, incluindo de jogadores que nem são grandes fãs do género RPG. E claro, quanto maiores as expectativas, maior o risco de desilusão. No dia 12 de Maio saíram as primeiras análises ao jogo e acho quem ninguém trabalhou realmente nesse dia. Todos no estúdio estavam colados ao monitor do computador a carregar no F5 a pesquisar análises do jogo! Quando foram finalmente publicadas e vimos os resultados... acho que nunca ouvi tanta gente a suspirar de alivio ao mesmo tempo! Foi um dia memorável para nós. Estamos muito felizes, acima de tudo por ver que ainda há um publico que quer este tipo de jogo, aventuras para um jogador, com uma boa história adulta e personagens interessantes."

"Agora estamos super entusiasmados com esta fase dos prémios para os Jogos do Ano. Confiantes, claro, mas não vamos ficar admirados se outros jogos ganharem. Foi um ano excelente com grandes jogos! Bloodborne, Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, Fallout 4, Batman: Arkham Knight... entre muitos outros. E claro, o The Witcher 3: Wild Hunt. Eu, por exemplo, não me farto de jogar Project CARS e até comprei um volante de propósito para esse jogo! E o próximo ano também promete!"

The Witcher 3: Wild Hunt parece-nos um dos mais fortes candidatos a Jogo do Ano, juntamente com Fallout 4, da Bethesda. Sempre pareceu existir uma certa relação de respeito, admiração e competitividade entre os dois estúdios, algo que José Teixeira confirmou.

"Aconteceram muitas 'constipações' no estúdio durante a semana em que o Fallout 4 saiu... imagino porquê! A Bethesda faz jogos absolutamente excelentes, sem dúvida, e tudo o que eles fazem serve como inspiração, e espero que o contrario aconteça também! Aqui no estúdio somos todos grandes consumidores de jogos, e embora cada um tenha a sua preferência, claro, quase todos adoram o género RPG. Penso que esta rivalidade entre estúdios acaba por beneficiar, tanto os jogadores, como os estúdios em si... obrigando-nos sempre a mais e melhor."

A história de The Witcher 3: Wild Hunt está recheada de momentos memoráveis, mas pedimos a José Teixeira a difícil tarefa de escolher um dos seus favoritos.

"Eu pessoalmente gosto imenso dos vários finais do jogo. Acho que os designers conseguiram uma mistura interessante de finais 'bons', que deixam o jogador satisfeito com o resultado da história. Quanto aos finais maus... eu tenho pena de quem tenha tido o pior final, acho que os argumentistas do jogo abusaram um pouco! O final é simplesmente brutal, e deixa um vazio no coração, sobretudo depois de tanto tempo a conhecer e ganhar empatia por aquelas personagens."

Quanto a nós, também temos vários momentos memoráveis de The Witcher 3, mas nenhum bate a noite de copos em Kaer Morhen. Brilhante! Tal como foi a expansão mais recente, Heart of Stone. Em 2016 será a grande despedida, com a chegada de Blood & Wine, uma expansão que promete ser massiva. Pedimos a José Teixeira que nos desse uma pequena pista do que aí vem.

"Não posso dizer muito, mas acho que brevemente teremos mais informações sobre esta expansão. O que posso dizer é que vai existir uma nova região para explorar, com novas personagens e aventuras. Creio que algures no The Witcher 3: Wild Hunt há um livro que fala desta região, descrevendo-a como "algo saído de um conto de fadas"... e mais não digo!" [Esse livro é Toussaint, a Duchy Out Of Tales of Fantasy and Wonder]

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José Teixeira está há vários anos na Polónia, mas não esquece Portugal, e reconhece a importância de iniciativas que apoiem os produtores nacionais.

"Acho que podemos ter sucesso lá fora. Qualidade existe de certeza. Já quando trabalhava em Lisboa era parte de uma equipa excepcional, com qualidade ao nível de qualquer outra empresa no mundo. Na altura os problemas eram sempre os orçamentos e os prazos absurdos, algo que é muito complicado para esta indústria, já que um jogo de qualidade requer investimento de tempo e dinheiro. Mas fico feliz por ver que este mercado está finalmente a crescer em Portugal, e espero que assim continue!

"Já pensei varias vezes na possibilidade de voltar a Portugal e é perfeitamente possível que isso aconteça a certo ponto, até porque a minha esposa é polaca e adoraria viver em Portugal. Se calhar é isso mesmo que o país precisa para desenvolver a industria dos jogos... o regresso de alguns 'veteranos'. Eu acho que ainda não cheguei a esse nível de experiência, mas um dia lá chegarei."

"Perguntam-me várias vezes porque não existe uma grande indústria de videojogos em Portugal, tendo em consideração que é um pais tão bom para se viver. Na brincadeira respondo que é devido ao bom tempo, que ninguém consegue ficar fechado em casa a olhar para o computador, mas ultimamente comecei a ouvir histórias de como várias empresas na Polónia e na Suécia começaram. São sempre contos de Invernos frios e miseráveis, onde um grupo de amigos se juntou e começou a fazer 'mods' para o Quake ou outro jogo qualquer. Até a Rockstar fica em Edimburgo, a Bioware em Edmonton e a Remedy na Finlândia! Começo realmente a acreditar que o sucesso na indústria dos jogos está de alguma forma relacionada com condições meteorológicas adversas."

Para terminar, José Teixeira fez questão de deixar alguns conselhos a alguém que pretenda seguir carreira nesta indústria.

"Sonham em trabalhar nesta área, talvez numa grande empresa que faz jogos 'AAA', para ganharem experiência e eventualmente fazerem o vosso próprio jogo? Isso é perfeitamente possível, e se calhar mais fácil do que muita gente imagina! Mas terão de sacrificar muito tempo. Aliás, nem é bem um sacrifício, mas um investimento! Aconselho vivamente que toda a gente dedique algum tempo a descobrir o que realmente gostam de fazer - no meu caso foram efeitos especiais - para depois ganharem experiência com tudo aquilo que esteja ao vosso alcance para se tornarem bons nessa área. Hoje em dia é mais fácil que nunca atingir este objectivo, porque existem motores de jogos disponíveis de graça onde podem fazer de tudo. Portanto acreditem, porque é possível!"

Obrigado José Teixeira, pela disponibilidade.

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